Friday, December 30, 2011

Segunda Carta

Meu amor,
Onde está você?
Às vezes me sinto tão só. Não é algo físico: é uma solidão de quem ama e não é amado. Então, mergulho em meu próprio mundo, imaginário, em que você está aqui e segura minha mão dizendo que vai ficar tudo bem. Sinto-me frágil e sem direção. Sinto-me assim sem você, mas trato logo de repelir esse misto de sentimentos. Como diria Clarice, ‘eu sou mais forte que eu’. Não posso entregar-me a tristeza.
Hoje me lembrei de você. Estava saindo da faculdade e fui acender um cigarro. Por hábito, peguei dois. Sempre descíamos no intervalo de cada aula e você sempre me pedia cigarros. É engraçado, você foi a única pessoa para qual nunca me importei em cedê-los. Também nunca conseguia ficar com raiva de você. Acho que me pegara esse negócio que chamam de paixão.
Minha mente prega-me peças. Posso senti-la, mas, não posso tocá-la. Posso jurar que consigo sentir seu cheiro, mas, não consigo vê-la. Talvez a loucura esteja se fazendo presente e tenha tomado conta de mim. Já quase não consigo mais diferenciar o que é real do que é somente imaginação.
Sinto que tudo vai ficar bem e espero acertar nessa. Nunca fui grande coisa em adivinhações, mas, minhas esperanças ainda são enormes e ainda tenho muito pela frente. O mundo nunca parou por ninguém, minha vida também não pode parar.
Despeço-me de forma breve. Nunca me dei bem com longas despedidas.

30/12/2011

Saturday, December 24, 2011

Primeira carta

Querida,
Quem é você que não esqueço?
Quem é você pra quem escrevo?
Há algum tempo sinto um vazio que não passa. Sabe como é? Aquela tristeza mansa, uma melancolia que vem de dentro e que, quando se vê, já tomou conta de você. Não é algo que se possa controlar ou lutar contra. Não é palpável, nem se sabe quando ou onde começou. Quando se vê já está assim: murcho.
Querida, se você pudesse me ler. Se pudesse me ver nesse momento. Éramos tão jovens e livres. Adolescentes inconseqüentes, invencíveis! Tomamos caminhos errados algumas vezes mas sabíamos que, mesmo que perdidos, estaríamos juntos. Eu errei. Trilhamos trilhas diferentes, e pior, elas nunca mais se cruzarão. Dói-me tanto pensar nisso. Falando nessa dor, ela tem me acompanhado nesses últimos meses. Ela tomou, de certa forma, seu lugar. Foi o que você me deixou além das boas lembranças. Como diria Caetano: “Você não me ensinou a te esquecer, você só me ensinou a te querer.”
Imagino como você está agora e como é o lugar em que está. Imagino todos felizes e alegres. Você deve ter encontrado quem a ama de verdade. Digo, não que não a amasse. Amei-a (e amo!) tão intensamente que seria impossível que alguém a amasse tanto. Quero dizer que deve ter achado quem o amasse de maneira mais medida, mais natural. Não como eu que nunca soube amar.
Quando amo, amo verdadeiramente e intensamente. Amo com o corpo inteiro, de forma desmedida. E que, assim como a tristeza, é algo quase imperceptível de inicio. Vem devagar e, aos poucos, lhe toma. Não dá pra controlar. Não sei de onde vem mas sei que, no fim, transforma-se em dor...
Por hora, é isso que lhe escrevo. Como se fosse ler. E digo o que sinto como se sentisse o mesmo.

24/12/11

Sunday, December 18, 2011

Luminescência

Viu ao longe uma pequena clareira. A princípio, não dera muita importância, assim como fizera sua vida toda. Nunca dera importância ao que era realmente essencial e, em algum momento de sua existência, reclamava sobre o quão miserável ela era. Lembrou-se dessa mesma luz que o iluminara há alguns anos atrás, mas, como tudo na vida do garoto, desvanecera de repente e o deixara na escuridão por alguns instantes.
Reencontrou essa tal clareira que, porém, estava diferente. Já não iluminava da mesma forma que há alguns anos. No presente, embora tenha começado com pequenos lampejos ficara feliz por tê-la de volta. Acostumando-se com o fato de que essa luz, que já não mais o iluminava, iluminasse outros. Aprendera a admirá-la de longe. Mas, ainda assim, era egoísta e sempre fora. Foi ensinado dessa forma, em um mundo em que ”tudo é meu e de mais ninguém”. Queria-a apenas para si e isso o matava. Não por não tê-la de fato, mas, por querê-la tão intensamente.
O desejo súbito foi cedendo aos poucos e, em seu lugar, ocupou-se aquela vontadezinha do que poderia ser e os “sês” do que poderia ter sido. Aquela vontade que vem devagar, como se fosse algo bobo e sem importância, e de repente toma conta da sua mente e o faz perder noites de sono. Uma saudade que vem aos poucos: aquilo que ficou fruto daquilo que não ficou.
Na medida em que os meses passavam a tal luz diminuía, gradualmente, sua intensidade. E todos assistiam, inquietantemente, de mãos atadas. Nunca a vira tão fosca e sem brilho! Era frustrante sentir-se impotente e assustador pensar que ela pudesse nunca mais ser da mesma forma que já fora.
De repente, quando já não se esperava mais nada, a luminescência ressurgiu tão intensa e cegante como jamais vira. Passou, por hora, a iluminá-lo e isso o confortou. Apaixonou-se e entregou-se. Custava em digerir a idéia de que a luz sofria de uma abrangência. Não o iluminava apenas, mas, para ele, aquela luz era tão importante que já pouco importava a quem iluminasse. Já não estava mais disposto a perdê-la. Cegou-se.
Estava de volta à escuridão que, agora, já não era mais física. Era uma escuridão de quem não queria ver. De quem fora acometido pelo amor, que o pegou de surpresa. E fora tocado tão profundamente que já havia se perdido em seu próprio caminho. Não sabia mais voltar e isso o assustava. Assistia, sem reação, à sua mudança. A luz, também, já não era mais a mesma. Mudara-se a forma e a cor.
Demorou alguns instantes para voltar a si. A cabeça centrada conseguia pensar, mesmo que ainda sob aquele efeito. Não sabia se aquilo ainda era o que queria. Parecia que não, mas o menino sempre tivera dificuldades em abrir mãos de certas coisas: principalmente aquelas que lhe eram essenciais. Aquelas que lhe pareciam impossível viver sem. Era sim, possível, só não sabia como. Desaprendera a viver de outra forma.
Concentrou-se em si mesmo. Não era bem resolvido o suficiente a ponto de esquecer-se de si próprio. A ponto de deixar a si próprio de lado e viver em função de outra coisa. Não podia se dar a esse luxo. “Eu sou mais forte do que eu.”.
Libertou-se.

Saturday, December 10, 2011

O Bem (17 horas)

As luzes piscavam coloridas, correndo, iluminando o quarto em focos aleatórios. As vozes, cada vez mais altas, assustadoramente reais como nem as vozes realmente reais pareceriam ser acompanhavam os vultos que, a todo o momento, transpassavam o pequeno cômodo, mas, de tanta transpassarem, já se acostumara com eles. Os barulhos o confundiam, o fizera perder o contato consigo mesmo. Entorpeceram-se os sentidos e desalinhara-se o pensamento. Atordoou-se.
Os barulhos foram cessando, gradualmente, junto ao medo. A calma tomou conta do ambiente que, em segundos, foi estraçalhada por completo por uma dor quase que física. Queria-o, de fato, e isso o matava. Tentava aproveitar-se da situação para manipular seus sentidos, materializá-lo, tê-lo consigo. Falhou.
Fechou, lentamente, os olhos. Começara a perder-se novamente em seus pensamentos até que ouviu uma calma respiração a alguns centímetros de seu ouvido. Posicionou seu rosto em direção a ela. Lá estava ele! Deitado bem ao seu lado, olhando em seus olhos! Imediatamente sentiu-se bem, tranqüilo. Sempre se sentia assim quando estava com ele. Depois veio aquela explosão de sensações que mal conseguia conter em seu corpo. Embora não deixasse que isso tudo se externalizasse, não significava que não sentia. Pelo contrário. De tanto que sentira, sentir tornou-se um fardo tal qual não lhe era mais conveniente carregar.
A frieza não era de nascença. Já ouve um tempo em que prezava sentir. A frigidez era apenas um reflexo de um coração que já fora tão machucado que sua sina era viver sem ele. Decididamente, viver sem sentimentos era muito mais fácil e seguro. Aprendera a viver dessa forma e vivera assim por tanto tempo que já não lembrava como era antes. Desaprendera a sentir. Seus fracassados casos amorosos se resumiam a um jogo de conquistas sem valor algum embora enganasse a si mesmo, fingindo que sentia, para sentir-se menos egoísta.
Não se importava, de fato, com muitas pessoas. Ou essa poderia ser apenas a imagem que queria passar para os outros. Mas, pra que? Era uma incógnita. Talvez nem mesmo o menino soubesse. Ele era o poeta e a poesia. Um poeta do cotidiano, sem os papéis e a caneta. Tampouco aquela formalidade, rima e métrica. Uma poesia que de tão subjetiva interpretável era. O limite entre um e outro era tênue.
Com ele, o menino sentia-se seguro, novamente. Não sentia mais aquele medo da perda. Aquele medo de sentir. Medo de apaixonar-se e de magoar-se caso, acidentalmente, acontecesse. O olhar do outro era penetrante, austero. E, ao mesmo tempo, pomposo e gentil. Era tudo o que precisava. Não era perfeito, afinal, ninguém é perfeito, mas, começara a acreditar veementemente que, embora com seus defeitos, era perfeito para ele.
Ambos ainda se olhavam fixamente. Queria-o mais intensamente. Agora, parecia mais real, mais palpável. Começou a aproximar seu rosto do dele. E, na medida em que se aproximavam mais rápido batia seu coração. No instante antes dos lábios se tocarem nada mais parecia importar. E quando finalmente os lábios se encostariam, ele desapareceu. Como se nunca estivesse existido.

Mais um cigarro


Imerso em seus próprios, torturantes, pensamentos. Já não sabia o que pensar, o que falar, como agir. Não que, de fato, soubera um dia. Mas agora era pior. Muito pior. Já não sabia se ia, se voltava, se permanecia parado. Ou se apenas se entregava à sua doce paranóia. Já não sabia quem era, o que era ou quem, ou o que, queria ser. Não sabia mais diferenciar o dever do querer. Não sabia de nada. Aliás, sabia de uma coisa, seu corpo implorava por um cigarro. Já não fumava mais.
Refletiu um tempo sobre por que parou de fumar. Lembrava que tinha algum objetivo incrustado. Um símbolo. A primeira meta de muitas metas que estariam por vir. Apenas o inicio de um ciclo de mudanças. O ano estava mudando, sua vida, então, também mudaria. Mas essa meta havia perdido seu significado. Já nem lembrava sobre o que se tratava. Não lembrava, igualmente, das outras metas. Como um ato tão banal como fumar ou parar de fumar poderia contribuir para alguma mudança? Como isso poderia contribuir pra qualquer coisa senão ao lucro da fabrica de cigarros?
-Por que diabos obriguei-me a parar de fumar? Onde estava com a cabeça?
Estava deitado em um quanto escuro. Inclinou a cabeça, levemente, para frente com o intuito de analisá-lo. A casa inteira rangia rangidos perturbadores. Os cômodos, aleatoriamente mobiliados, vazios. A casa inteira estava. Assim como se sentia o menino: vazio. Sozinho. E esse sentimento não o deixava. A solidão foi cruel. Atacou-o quando mais precisou de alguém e o matou por dentro.
Já levava o cigarro até a boca quando lembrou que o tal símbolo tinha um por quê. Era algo muito grande, incomensurável. Não lembrava o que era, mas, lembrava que era algo que mudaria a sua vida e a si mesmo completamente. Mas a dor da abstinência era grande e aquela altura já se tornara física. E pesava. E muito.
Começara a divagar sobre esse símbolo. Qual significado poderia guardar? Mas vinha apenas um branco, um profundo e infinito branco à sua mente. Não conseguia pensar em nada senão naquilo: fumar, fumar e fumar.
Por que perdera tanto tempo de sua vida e seu dinheiro naquele hábito tão patético? Onde já se viu, pagar por aquilo que o vicia e o mata?Mas como dizem: uma vez viciado, sempre viciado. E isso o puxa para baixo. Por mais que se queira parar, se por um momento distrair-se do dever de vigiar-se toda a hora isso o engole novamente e torna-se cada vez mais difícil libertar-se.
A música clássica suavizava aos poucos o ambiente pesado. Começara, então, a sentir, apenas, a música. As cordas dançantes dos violinos inquietantes. O som das teclas do piano, uma a uma, sendo pressionadas. Aquelas notas penetravam na sua mente e o levavam aos céus. Sentia-se infinito. Sentia-se invencível. Sentia que poderia conseguir tudo o que quisesse se assim acreditasse. E acreditou. Acreditou que toda a sua vida poderia mudar naquele instante. Lembrou-se dos por quês e do símbolo. Lembrou-se do que queria para a si: não era nada daquilo que tinha.
A mudança começa com pequenos feitos. Vem com pequenos focos, a primeira vista, insignificantes, mas com o tempo vai crescendo e quando se vê nem se sabe mais como era antes. Como no caso de parar de fumar. Não é sobre apenas o fato de fazer mal, ou de financiar um sistema injusto. É muito mais que isso. Faz parte desses pequenos feitos. Quebrar barreiras, não depender de nada. Libertar-se. Era isso o que o menino queria e quisera sua vida toda, só lhe faltavam forças.
A música acabou. E o ambiente começou a pesar novamente. Sentou-se na cama e deu mais uma olhada a seu redor. A solidão era sua companheira, talvez a única. Os cômodos, aleatoriamente mobiliados, vazios. Assim como o menino.
Acendeu um cigarro e levou-o até a boca.

Tuesday, September 27, 2011

Julia

Desde que a conhecera, soubera, ela era uma ótima pessoa. Mas, de ótimas pessoas, o mundo está cheio. Talvez não tanto quanto deveria. A questão é: ela é muito mais que isso. E o melhor, havia muito mais por vir. Isso o deixava contente e ao mesmo tempo fascinado. O que mais poderia conhecer sobre ela? O que estaria por vir? Questões que só poderiam ser respondidas com o tempo. E esperava ansiosamente para que pudessem ser respondidas. Nunca imaginara que, no meio de tantas pessoas, acharia uma tão rara.
Embora não soubesse nada sobre ele, em pouquíssimo tempo, sentia que ela sabia mais do que muita gente que passara uma vida ao lado dele. Nem mesmo ele se entendia. E, como disse Clarice, talvez o entender não fosse uma questão de inteligência, e sim de sentir. Talvez, essas pessoas que passaram tanto tempo com ele nunca se preocuparam em senti-lo ou perderam tempo tentando entendê-lo como ela o fizera.
Dizem que a primeira impressão é a que fica. E quem se apresenta a qualquer platéia em que não se conhece 90% das pessoas, citando Clarice Lispector, definitivamente, passa a melhor impressão do mundo e não se deve ser avaliado como qualquer um. Dito e feito. Ela estava longe de se assemelhar a qualquer pessoa que ele jamais conhecera. Ela era, talvez, tão singular quanto à autora que citara anteriormente.
Dentre tantas características e qualidades a pouco mostrara uma das mais notáveis: a de cativar. E cumpriu essa tarefa maravilhosamente bem sem ao menos dar-se conta. Em poucos instantes o menino que, a princípio, encontrava-se triste, conseguiu esboçar meios sorrisos pelas boas surpresas. E, acredite, definitivamente, não é qualquer um que consegue.

Muito mais do que só palavras

A principio, estava em um quarto. Não sabia, exatamente, como fora parar ali. Estava meio perdido, mas, imediatamente, apareceram várias pessoas para ajudá-lo. Elas, sempre sorrindo, pareciam, também, sempre felizes, mostravam-se receptíveis, amáveis. O ambiente era amigável, o local amplo, móveis e cortinas em tom claro. Sentia-se bem em estar ali. Tudo era perfeito. Não conseguia achar defeitos nem os procurava. Não queria estragar o momento. As luzes o cegavam.
O tempo foi passando. As luzes foram ficando mais fracas mas, ainda sim, cumpriam seu papel: iluminar. Embora o dissessem inúmeras vezes que o próprio menino, por si só, já iluminava o ambiente. Mesmo que sempre tenha achado difícil de acreditar, pensar em si mesmo como alguém iluminado, diferente, com o futuro promissor, o dava certa importância. O fazia sentir-se esperançoso. Tinha tanta coisa pela frente. Tanta coisa para conquistar. Tantas ambições de vida, objetivos e metas para alcançar, experiências para viver!
O ambiente estava mais escuro. As luzes cada vez mais fracas. Passou, então, a ver algumas imperfeições. Começava a perder a fé em si mesmo. “Eu sou iluminado”, repetia em sua mente. Mas perguntava aos outros para que o confirmassem. E, de tanto querer acreditar, acabava por acreditar. As pessoas já não eram mais tão atenciosas como antes. O quarto já não parecia mais tão amigável. Na verdade, começava a tornar-se um pouco assustador. Não entendia direito o que estava acontecendo.
Tudo parecia ocorrer relativamente bem até que a escuridão total tomou conta do lugar. Primeiramente, imaginou ser passageiro. Então, esperou no escuro. Com o tempo, viu que poderia não passar. Começou sentindo uma angústia dentro de si que logo tomou forma de um choro, tímido e silencioso. E, depois, transformou-se em um vazio. Um enorme e profundo vazio, tão incomensurável que quase sentia medo. Queria sentir algo. Nem que fosse tristeza, medo, ou desespero. Mas não sentia nada. Permaneceu, então, dessa forma.
O que houve? Onde estão as luzes? Onde estão as pessoas? Já não reconhecia mais o espaço que, antes, era seu porto-seguro. Não reconhecia mais as pessoas em sua volta que, antes, o estendiam a mão e diziam que tudo ficaria bem. Não se reconhecia mais. Andava pelo quarto. Tateava os móveis e as paredes em busca do antigo. Mas tropeçava na mobília a qual, antes, parecia enfeitar, agora, era um obstáculo. E, a cada vez que tropeçava, era uma queda. E, a cada queda, erguer-se parecia cada vez mais difícil. Chamava os nomes. Não havia resposta. Flashes de luz, vez ou outra, o davam uma pontada de esperança que, com a mesma rapidez que aparecia, desvanecia. Até onde ia a realidade e começava sua imaginação?
Observou, então, um feixe de luz que passava por baixo da porta. Queria segui-lo, mas, estava hesitante. O que teria do outro lado? Mil coisas passaram por sua cabeça em um átimo segundo. Talvez nada. Talvez tudo. O mundo. O que será que fizeram todas as outras pessoas que passaram por aquele quarto? “Devem ter esperado aqui, movidos por algum tipo de esperança e expectativa boba. Pura utopia.”, imaginou. Não sabia o que fazer. Sentia-se tão perdido quanto quando chegara. Não via outra escolha senão a de largar tudo aquilo com o qual se acostumou. Era o fim. Não esperava por nada além disso.
Dirigiu-se, então, até a porta. Sua mão tocou a maçaneta. Estava fria. Seu corpo bambeou. Quase desistiu de tudo, mas, estava determinado a seguir à diante. Foi abrindo-a, lentamente, até que surgiu um pequeno vão entre o quarto em que estava e o infinito. Entregou-se a situação. Por fim, atirou-se para fora.

Monday, September 26, 2011

Anotação Mental

Não se reconhecia mais. Chegara o clássico momento em que parecia necessário abrir mão de certas coisas, mesmo as mais preciosas, mesmo aquelas que já faziam parte dele. Momento em que, mesmo que difícil, supostamente, racionalmente, deixar tudo para trás lhe parecia o mais sensato. Momento de languidez. Momento de imolação.
Procurava a felicidade na escuridão. Perguntava-se até onde deveria ir. Até onde valia a pena. Seus olhos, sempre gentis, permaneciam, agora, imóveis, sem expressão. Focava o nada como se o nada fosse dizer-lhe a resposta de tudo. Não havia angústia. Não havia mágoa. O peito vazio, sem contração. Não havia grito.
Sentia-se incompreendido de tal maneira que nem mesmo ele se entendia. Naquele momento encontrava-se em um mundo criado, uma espécie de realidade paralela que o acolhia uma vez que a realidade real lhe parecia sem sentido.
Pensou sobre como sua vida havia mudado tanto em tão pouco tempo. Em como ele mesmo havia se transformado e que, ainda sim, não conseguia se encaixar. Vez ou outra abriu mão de suas vontades para sentir-se incluído. Vez ou outra chorou, silenciosamente, por ser diferente. Não sabia direito o por quê mas descobriu, da pior maneira, que não valia a pena.
Imaginou, inúmeras vezes, ter, enfim, encontrado alguém que o compreendesse. Perdeu-se, encontrou-se, perdeu-se, encontrou-se. Sentimentos diferentes, promessas diferentes, contextos diferentes, finais iguais. Acostumou-se aos quases: a seus quase-amores, suas quase-realizações, sua quase-felicidade.
Certo, por fim, que a solidão a dois era muito mais amarga, decidiu fazer, então, algo em que sempre foi bom: ficar sozinho. O cérebro, novamente, passou a fazer o trabalho em que outrora o coração se atreveu em realizar mas que era seu por direito, comandar seu corpo e suas ações. Olhos inexpressivos. Coração de gelo. Não havia sentimento.
Posso, finalmente, voar - pensei. E mesmo que o destino seja incerto é, certamente, melhor que a dor.

Tuesday, September 13, 2011

Mais uma para você

Nunca gostei de clichês ou romantismo. Nunca fui o mais sentimental, tampouco o mais sensível. Mas viu-se coisa mais clichê e sentimental do que escrever um texto sobre isso?
As situações foram sempre as erradas, os caminhos os mais errôneos. Como fui gostar tanto de você? Pergunto-me isso toda a noite.”Te amo o suficiente por enquanto.”. O que seria o suficiente? “Muita coisa”. - Respondeu. E isso mudou minha noite de tal forma que até tornar-me clichê repetitivo tornou-me.
Transformei-me, de certa forma, em tudo o que sempre achei ridiculo. E você o faz parecer bom. Patético? Talvez? Oscilações de humor. Sou como um vulcão prestes a explodir. E, pela primeira vez em tempos, não sinto medo.
Entre sorrisos e irritações você me cativou. Seu jeito singular me deixou fascinado. Dediquei meu tempo em decifrar-te. Mas sem o enigma de que, se não o fizesse, devorar-me-ia.
Pararei, por hora, de escrever. Antes que eu comece a fazer rimas e poemas. De certa forma, mudei. Mas não é para tanto.

Só mais um desabafo

Isolamento do mundo. Clássico. Assim como a fase gauche de Drummond. Pior que se isolar é fazer parte. Compactuar. Ou pior, fazer igual. O impossível é impossível. Se é que isso faz sentido. Ninguem é obrigado a nada, nem nunca foi. No fundo é só covardia.
“Everyone wants to change the world but no one wants to die. Wanna try?” - Claro que não. Languidez profunda. Sem vontade. Sem nada. Ou tudo.
Antíteses são meu forte. A falta de sentido também. Me apaixonei pelos meus próprios pecados. Obsecado por meus próprios desafios. Tentando me encontrar, me perdi ainda mais. Quase como na questão determinista. Aceitei que sou assim. Virei tudo o que sempre critiquei. O conformismo nunca foi bom. Mas não consigo enxergar outros caminhos.
Alienação compactual e consciente. A pior.

Introspecção

Introspectivamente, silenciosamente, melancolicamente, sente. Palavras jogadas. Realidade não-vivida. Cigarros queimando. Alcool.
Não reconhecimento do seu próprio eu. Desde quando? Até quando? Auto-flagelação. Não vale a pena. O que vale, então, a pena? Viver? Sentir? Amar? Nada vale. Caminho trilhado pelo egoísmo e individualismo. Nunca fez sentido. Não fará. Pelo menos não para mim.
O silêncio me consome, a tristeza também. O vazio, agora, é meu amigo. Talvez o único. Decepção. Tanto faz. Frases soltas, sem sentido. Assim como na minha cabeça, ou os sentimentos. Não sei. Alguém sabe?
Perguntas sem respostas.
Eu sem você.
Se alguma dessas mudar. Me avise.

Por trás de toda frigidez há um coração partido

O céu está tão bonito esta noite – pensou o menino. E a lua parece tão próxima que quase consigo tocá-la com as mãos.
Deitado na grama, sozinho, olhava as estrelas e tentava colocar seus pensamentos no lugar. O cheiro de terra molhada, a suave brisa, a noite, de certa forma, o ajudava a pensar. Por que sentir? Por que se importar? Perguntava a si como se, daquela maneira, fosse conseguir as respostas. Não conseguiu.
Primeiro, o vazio. Depois, o choro. Não conseguia segurar as lágrimas que teimavam em descer. Supria sua carência com cigarros. Supria sua tristeza com álcool. E sentia falta de quando seu coração parecia trancado em uma gaveta às sete chaves, de quando não sentia, não amava, não se importava. Não se reconhecia mais.
Levantou-se lentamente, secou suas lágrimas. Ainda olhava as estrelas. Esfriou sua cabeça e coração. Não valia a pena. Aos poucos voltava a ser como antes. Coração de gelo. Era mais seguro. Doía menos. O coração de pedra já fora de vidro. Tornava-se frígido, forte.
Por trás de toda frigidez há um coração partido.