As luzes piscavam coloridas, correndo, iluminando o quarto em focos aleatórios. As vozes, cada vez mais altas, assustadoramente reais como nem as vozes realmente reais pareceriam ser acompanhavam os vultos que, a todo o momento, transpassavam o pequeno cômodo, mas, de tanta transpassarem, já se acostumara com eles. Os barulhos o confundiam, o fizera perder o contato consigo mesmo. Entorpeceram-se os sentidos e desalinhara-se o pensamento. Atordoou-se.
Os barulhos foram cessando, gradualmente, junto ao medo. A calma tomou conta do ambiente que, em segundos, foi estraçalhada por completo por uma dor quase que física. Queria-o, de fato, e isso o matava. Tentava aproveitar-se da situação para manipular seus sentidos, materializá-lo, tê-lo consigo. Falhou.
Fechou, lentamente, os olhos. Começara a perder-se novamente em seus pensamentos até que ouviu uma calma respiração a alguns centímetros de seu ouvido. Posicionou seu rosto em direção a ela. Lá estava ele! Deitado bem ao seu lado, olhando em seus olhos! Imediatamente sentiu-se bem, tranqüilo. Sempre se sentia assim quando estava com ele. Depois veio aquela explosão de sensações que mal conseguia conter em seu corpo. Embora não deixasse que isso tudo se externalizasse, não significava que não sentia. Pelo contrário. De tanto que sentira, sentir tornou-se um fardo tal qual não lhe era mais conveniente carregar.
A frieza não era de nascença. Já ouve um tempo em que prezava sentir. A frigidez era apenas um reflexo de um coração que já fora tão machucado que sua sina era viver sem ele. Decididamente, viver sem sentimentos era muito mais fácil e seguro. Aprendera a viver dessa forma e vivera assim por tanto tempo que já não lembrava como era antes. Desaprendera a sentir. Seus fracassados casos amorosos se resumiam a um jogo de conquistas sem valor algum embora enganasse a si mesmo, fingindo que sentia, para sentir-se menos egoísta.
Não se importava, de fato, com muitas pessoas. Ou essa poderia ser apenas a imagem que queria passar para os outros. Mas, pra que? Era uma incógnita. Talvez nem mesmo o menino soubesse. Ele era o poeta e a poesia. Um poeta do cotidiano, sem os papéis e a caneta. Tampouco aquela formalidade, rima e métrica. Uma poesia que de tão subjetiva interpretável era. O limite entre um e outro era tênue.
Com ele, o menino sentia-se seguro, novamente. Não sentia mais aquele medo da perda. Aquele medo de sentir. Medo de apaixonar-se e de magoar-se caso, acidentalmente, acontecesse. O olhar do outro era penetrante, austero. E, ao mesmo tempo, pomposo e gentil. Era tudo o que precisava. Não era perfeito, afinal, ninguém é perfeito, mas, começara a acreditar veementemente que, embora com seus defeitos, era perfeito para ele.
Ambos ainda se olhavam fixamente. Queria-o mais intensamente. Agora, parecia mais real, mais palpável. Começou a aproximar seu rosto do dele. E, na medida em que se aproximavam mais rápido batia seu coração. No instante antes dos lábios se tocarem nada mais parecia importar. E quando finalmente os lábios se encostariam, ele desapareceu. Como se nunca estivesse existido.
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