Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece” – Clarice Lispector
A principio, tivera certa dificuldade em transcrever de forma ordenada e sincera o que pensava e sentia em relação ao menino. Assim como quando o conhecera. E mesmo que o tivera visto uma ou duas vezes nunca havia tido uma opinião a formada a seu respeito. Aos poucos as palavras foram fluindo com certa naturalidade. O que lhe representava-o?
De primeira impressão, não esperava muita coisa. Não que o menino parecesse pouco ao ver, mas, de certa forma, desaprendera a criar expectativas. De certa forma, perdera a esperança nas pessoas. Há tempos, desaprendera a viver também e, aos poucos, sem passos longos, ia reaprendendo a andar em direção a esse terreno inóspito que era sentir. As pequenas felicidades e os pequenos anos lhe tinham muita importância, sempre tiveram.
Então era isso! O menino lhe era como uma pequena alegria que já se tornara cotidiana. Nunca fora muito bom em desvincular-se de alguns hábitos. Não é preciso conhecer a fundo alguém para considerá-lo essencial. Fato que, na verdade, dá uma maior chance de possíveis futuras decepções. Mas quem disse que temia? Talvez por inocência não sentisse medo.
Não sabia ao certo o que o outro pensava, mas, àquela altura, também já não ligava mais. O que importava é que o próprio pensava (e sentia!). Sentia um desconhecido que não lhe era assustador. Era-lhe surpreendentemente envolvente. Um sentimento que, quanto mais o tempo passava, maior parecia ser. O carinho, o zelo e mais um misto de outros sentimentos. E, como algo inovador, prezava sentir. Perdera esse apresso meses (talvez anos) atrás, mas, de forma gradual, resgatava-o.
Sempre tinha muito a dizer embora falasse pouco. Por fim, cansado de divagar, ia terminando o pequeno texto. E que por maior que fosse o esforço, não conseguiria transpor nele tudo o que queria, de fato, dizer. Embora pensasse que, de certa forma, captou a essência das suas palavras.
“Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.” – Clarice Lispector