Tuesday, September 27, 2011

Julia

Desde que a conhecera, soubera, ela era uma ótima pessoa. Mas, de ótimas pessoas, o mundo está cheio. Talvez não tanto quanto deveria. A questão é: ela é muito mais que isso. E o melhor, havia muito mais por vir. Isso o deixava contente e ao mesmo tempo fascinado. O que mais poderia conhecer sobre ela? O que estaria por vir? Questões que só poderiam ser respondidas com o tempo. E esperava ansiosamente para que pudessem ser respondidas. Nunca imaginara que, no meio de tantas pessoas, acharia uma tão rara.
Embora não soubesse nada sobre ele, em pouquíssimo tempo, sentia que ela sabia mais do que muita gente que passara uma vida ao lado dele. Nem mesmo ele se entendia. E, como disse Clarice, talvez o entender não fosse uma questão de inteligência, e sim de sentir. Talvez, essas pessoas que passaram tanto tempo com ele nunca se preocuparam em senti-lo ou perderam tempo tentando entendê-lo como ela o fizera.
Dizem que a primeira impressão é a que fica. E quem se apresenta a qualquer platéia em que não se conhece 90% das pessoas, citando Clarice Lispector, definitivamente, passa a melhor impressão do mundo e não se deve ser avaliado como qualquer um. Dito e feito. Ela estava longe de se assemelhar a qualquer pessoa que ele jamais conhecera. Ela era, talvez, tão singular quanto à autora que citara anteriormente.
Dentre tantas características e qualidades a pouco mostrara uma das mais notáveis: a de cativar. E cumpriu essa tarefa maravilhosamente bem sem ao menos dar-se conta. Em poucos instantes o menino que, a princípio, encontrava-se triste, conseguiu esboçar meios sorrisos pelas boas surpresas. E, acredite, definitivamente, não é qualquer um que consegue.

Muito mais do que só palavras

A principio, estava em um quarto. Não sabia, exatamente, como fora parar ali. Estava meio perdido, mas, imediatamente, apareceram várias pessoas para ajudá-lo. Elas, sempre sorrindo, pareciam, também, sempre felizes, mostravam-se receptíveis, amáveis. O ambiente era amigável, o local amplo, móveis e cortinas em tom claro. Sentia-se bem em estar ali. Tudo era perfeito. Não conseguia achar defeitos nem os procurava. Não queria estragar o momento. As luzes o cegavam.
O tempo foi passando. As luzes foram ficando mais fracas mas, ainda sim, cumpriam seu papel: iluminar. Embora o dissessem inúmeras vezes que o próprio menino, por si só, já iluminava o ambiente. Mesmo que sempre tenha achado difícil de acreditar, pensar em si mesmo como alguém iluminado, diferente, com o futuro promissor, o dava certa importância. O fazia sentir-se esperançoso. Tinha tanta coisa pela frente. Tanta coisa para conquistar. Tantas ambições de vida, objetivos e metas para alcançar, experiências para viver!
O ambiente estava mais escuro. As luzes cada vez mais fracas. Passou, então, a ver algumas imperfeições. Começava a perder a fé em si mesmo. “Eu sou iluminado”, repetia em sua mente. Mas perguntava aos outros para que o confirmassem. E, de tanto querer acreditar, acabava por acreditar. As pessoas já não eram mais tão atenciosas como antes. O quarto já não parecia mais tão amigável. Na verdade, começava a tornar-se um pouco assustador. Não entendia direito o que estava acontecendo.
Tudo parecia ocorrer relativamente bem até que a escuridão total tomou conta do lugar. Primeiramente, imaginou ser passageiro. Então, esperou no escuro. Com o tempo, viu que poderia não passar. Começou sentindo uma angústia dentro de si que logo tomou forma de um choro, tímido e silencioso. E, depois, transformou-se em um vazio. Um enorme e profundo vazio, tão incomensurável que quase sentia medo. Queria sentir algo. Nem que fosse tristeza, medo, ou desespero. Mas não sentia nada. Permaneceu, então, dessa forma.
O que houve? Onde estão as luzes? Onde estão as pessoas? Já não reconhecia mais o espaço que, antes, era seu porto-seguro. Não reconhecia mais as pessoas em sua volta que, antes, o estendiam a mão e diziam que tudo ficaria bem. Não se reconhecia mais. Andava pelo quarto. Tateava os móveis e as paredes em busca do antigo. Mas tropeçava na mobília a qual, antes, parecia enfeitar, agora, era um obstáculo. E, a cada vez que tropeçava, era uma queda. E, a cada queda, erguer-se parecia cada vez mais difícil. Chamava os nomes. Não havia resposta. Flashes de luz, vez ou outra, o davam uma pontada de esperança que, com a mesma rapidez que aparecia, desvanecia. Até onde ia a realidade e começava sua imaginação?
Observou, então, um feixe de luz que passava por baixo da porta. Queria segui-lo, mas, estava hesitante. O que teria do outro lado? Mil coisas passaram por sua cabeça em um átimo segundo. Talvez nada. Talvez tudo. O mundo. O que será que fizeram todas as outras pessoas que passaram por aquele quarto? “Devem ter esperado aqui, movidos por algum tipo de esperança e expectativa boba. Pura utopia.”, imaginou. Não sabia o que fazer. Sentia-se tão perdido quanto quando chegara. Não via outra escolha senão a de largar tudo aquilo com o qual se acostumou. Era o fim. Não esperava por nada além disso.
Dirigiu-se, então, até a porta. Sua mão tocou a maçaneta. Estava fria. Seu corpo bambeou. Quase desistiu de tudo, mas, estava determinado a seguir à diante. Foi abrindo-a, lentamente, até que surgiu um pequeno vão entre o quarto em que estava e o infinito. Entregou-se a situação. Por fim, atirou-se para fora.

Monday, September 26, 2011

Anotação Mental

Não se reconhecia mais. Chegara o clássico momento em que parecia necessário abrir mão de certas coisas, mesmo as mais preciosas, mesmo aquelas que já faziam parte dele. Momento em que, mesmo que difícil, supostamente, racionalmente, deixar tudo para trás lhe parecia o mais sensato. Momento de languidez. Momento de imolação.
Procurava a felicidade na escuridão. Perguntava-se até onde deveria ir. Até onde valia a pena. Seus olhos, sempre gentis, permaneciam, agora, imóveis, sem expressão. Focava o nada como se o nada fosse dizer-lhe a resposta de tudo. Não havia angústia. Não havia mágoa. O peito vazio, sem contração. Não havia grito.
Sentia-se incompreendido de tal maneira que nem mesmo ele se entendia. Naquele momento encontrava-se em um mundo criado, uma espécie de realidade paralela que o acolhia uma vez que a realidade real lhe parecia sem sentido.
Pensou sobre como sua vida havia mudado tanto em tão pouco tempo. Em como ele mesmo havia se transformado e que, ainda sim, não conseguia se encaixar. Vez ou outra abriu mão de suas vontades para sentir-se incluído. Vez ou outra chorou, silenciosamente, por ser diferente. Não sabia direito o por quê mas descobriu, da pior maneira, que não valia a pena.
Imaginou, inúmeras vezes, ter, enfim, encontrado alguém que o compreendesse. Perdeu-se, encontrou-se, perdeu-se, encontrou-se. Sentimentos diferentes, promessas diferentes, contextos diferentes, finais iguais. Acostumou-se aos quases: a seus quase-amores, suas quase-realizações, sua quase-felicidade.
Certo, por fim, que a solidão a dois era muito mais amarga, decidiu fazer, então, algo em que sempre foi bom: ficar sozinho. O cérebro, novamente, passou a fazer o trabalho em que outrora o coração se atreveu em realizar mas que era seu por direito, comandar seu corpo e suas ações. Olhos inexpressivos. Coração de gelo. Não havia sentimento.
Posso, finalmente, voar - pensei. E mesmo que o destino seja incerto é, certamente, melhor que a dor.

Tuesday, September 13, 2011

Mais uma para você

Nunca gostei de clichês ou romantismo. Nunca fui o mais sentimental, tampouco o mais sensível. Mas viu-se coisa mais clichê e sentimental do que escrever um texto sobre isso?
As situações foram sempre as erradas, os caminhos os mais errôneos. Como fui gostar tanto de você? Pergunto-me isso toda a noite.”Te amo o suficiente por enquanto.”. O que seria o suficiente? “Muita coisa”. - Respondeu. E isso mudou minha noite de tal forma que até tornar-me clichê repetitivo tornou-me.
Transformei-me, de certa forma, em tudo o que sempre achei ridiculo. E você o faz parecer bom. Patético? Talvez? Oscilações de humor. Sou como um vulcão prestes a explodir. E, pela primeira vez em tempos, não sinto medo.
Entre sorrisos e irritações você me cativou. Seu jeito singular me deixou fascinado. Dediquei meu tempo em decifrar-te. Mas sem o enigma de que, se não o fizesse, devorar-me-ia.
Pararei, por hora, de escrever. Antes que eu comece a fazer rimas e poemas. De certa forma, mudei. Mas não é para tanto.

Só mais um desabafo

Isolamento do mundo. Clássico. Assim como a fase gauche de Drummond. Pior que se isolar é fazer parte. Compactuar. Ou pior, fazer igual. O impossível é impossível. Se é que isso faz sentido. Ninguem é obrigado a nada, nem nunca foi. No fundo é só covardia.
“Everyone wants to change the world but no one wants to die. Wanna try?” - Claro que não. Languidez profunda. Sem vontade. Sem nada. Ou tudo.
Antíteses são meu forte. A falta de sentido também. Me apaixonei pelos meus próprios pecados. Obsecado por meus próprios desafios. Tentando me encontrar, me perdi ainda mais. Quase como na questão determinista. Aceitei que sou assim. Virei tudo o que sempre critiquei. O conformismo nunca foi bom. Mas não consigo enxergar outros caminhos.
Alienação compactual e consciente. A pior.

Introspecção

Introspectivamente, silenciosamente, melancolicamente, sente. Palavras jogadas. Realidade não-vivida. Cigarros queimando. Alcool.
Não reconhecimento do seu próprio eu. Desde quando? Até quando? Auto-flagelação. Não vale a pena. O que vale, então, a pena? Viver? Sentir? Amar? Nada vale. Caminho trilhado pelo egoísmo e individualismo. Nunca fez sentido. Não fará. Pelo menos não para mim.
O silêncio me consome, a tristeza também. O vazio, agora, é meu amigo. Talvez o único. Decepção. Tanto faz. Frases soltas, sem sentido. Assim como na minha cabeça, ou os sentimentos. Não sei. Alguém sabe?
Perguntas sem respostas.
Eu sem você.
Se alguma dessas mudar. Me avise.

Por trás de toda frigidez há um coração partido

O céu está tão bonito esta noite – pensou o menino. E a lua parece tão próxima que quase consigo tocá-la com as mãos.
Deitado na grama, sozinho, olhava as estrelas e tentava colocar seus pensamentos no lugar. O cheiro de terra molhada, a suave brisa, a noite, de certa forma, o ajudava a pensar. Por que sentir? Por que se importar? Perguntava a si como se, daquela maneira, fosse conseguir as respostas. Não conseguiu.
Primeiro, o vazio. Depois, o choro. Não conseguia segurar as lágrimas que teimavam em descer. Supria sua carência com cigarros. Supria sua tristeza com álcool. E sentia falta de quando seu coração parecia trancado em uma gaveta às sete chaves, de quando não sentia, não amava, não se importava. Não se reconhecia mais.
Levantou-se lentamente, secou suas lágrimas. Ainda olhava as estrelas. Esfriou sua cabeça e coração. Não valia a pena. Aos poucos voltava a ser como antes. Coração de gelo. Era mais seguro. Doía menos. O coração de pedra já fora de vidro. Tornava-se frígido, forte.
Por trás de toda frigidez há um coração partido.