Meu amor,
Onde está você?
Às vezes me sinto tão só. Não é algo físico: é uma solidão de quem ama e não é amado. Então, mergulho em meu próprio mundo, imaginário, em que você está aqui e segura minha mão dizendo que vai ficar tudo bem. Sinto-me frágil e sem direção. Sinto-me assim sem você, mas trato logo de repelir esse misto de sentimentos. Como diria Clarice, ‘eu sou mais forte que eu’. Não posso entregar-me a tristeza.
Hoje me lembrei de você. Estava saindo da faculdade e fui acender um cigarro. Por hábito, peguei dois. Sempre descíamos no intervalo de cada aula e você sempre me pedia cigarros. É engraçado, você foi a única pessoa para qual nunca me importei em cedê-los. Também nunca conseguia ficar com raiva de você. Acho que me pegara esse negócio que chamam de paixão.
Minha mente prega-me peças. Posso senti-la, mas, não posso tocá-la. Posso jurar que consigo sentir seu cheiro, mas, não consigo vê-la. Talvez a loucura esteja se fazendo presente e tenha tomado conta de mim. Já quase não consigo mais diferenciar o que é real do que é somente imaginação.
Sinto que tudo vai ficar bem e espero acertar nessa. Nunca fui grande coisa em adivinhações, mas, minhas esperanças ainda são enormes e ainda tenho muito pela frente. O mundo nunca parou por ninguém, minha vida também não pode parar.
Despeço-me de forma breve. Nunca me dei bem com longas despedidas.
30/12/2011
"Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece." "Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. Sou irritável e firo facilmente. Também sou muito calmo e perdôo logo. Não esqueço nunca. Mas há poucas coisas de que eu me lembre." “Apesar do meu ar duro, sou cheio de muito amor e é isso o que certamente me dá uma grandeza.”
Friday, December 30, 2011
Saturday, December 24, 2011
Primeira carta
Querida,
Quem é você que não esqueço?
Quem é você pra quem escrevo?
Há algum tempo sinto um vazio que não passa. Sabe como é? Aquela tristeza mansa, uma melancolia que vem de dentro e que, quando se vê, já tomou conta de você. Não é algo que se possa controlar ou lutar contra. Não é palpável, nem se sabe quando ou onde começou. Quando se vê já está assim: murcho.
Querida, se você pudesse me ler. Se pudesse me ver nesse momento. Éramos tão jovens e livres. Adolescentes inconseqüentes, invencíveis! Tomamos caminhos errados algumas vezes mas sabíamos que, mesmo que perdidos, estaríamos juntos. Eu errei. Trilhamos trilhas diferentes, e pior, elas nunca mais se cruzarão. Dói-me tanto pensar nisso. Falando nessa dor, ela tem me acompanhado nesses últimos meses. Ela tomou, de certa forma, seu lugar. Foi o que você me deixou além das boas lembranças. Como diria Caetano: “Você não me ensinou a te esquecer, você só me ensinou a te querer.”
Imagino como você está agora e como é o lugar em que está. Imagino todos felizes e alegres. Você deve ter encontrado quem a ama de verdade. Digo, não que não a amasse. Amei-a (e amo!) tão intensamente que seria impossível que alguém a amasse tanto. Quero dizer que deve ter achado quem o amasse de maneira mais medida, mais natural. Não como eu que nunca soube amar.
Quando amo, amo verdadeiramente e intensamente. Amo com o corpo inteiro, de forma desmedida. E que, assim como a tristeza, é algo quase imperceptível de inicio. Vem devagar e, aos poucos, lhe toma. Não dá pra controlar. Não sei de onde vem mas sei que, no fim, transforma-se em dor...
Por hora, é isso que lhe escrevo. Como se fosse ler. E digo o que sinto como se sentisse o mesmo.
24/12/11
Quem é você que não esqueço?
Quem é você pra quem escrevo?
Há algum tempo sinto um vazio que não passa. Sabe como é? Aquela tristeza mansa, uma melancolia que vem de dentro e que, quando se vê, já tomou conta de você. Não é algo que se possa controlar ou lutar contra. Não é palpável, nem se sabe quando ou onde começou. Quando se vê já está assim: murcho.
Querida, se você pudesse me ler. Se pudesse me ver nesse momento. Éramos tão jovens e livres. Adolescentes inconseqüentes, invencíveis! Tomamos caminhos errados algumas vezes mas sabíamos que, mesmo que perdidos, estaríamos juntos. Eu errei. Trilhamos trilhas diferentes, e pior, elas nunca mais se cruzarão. Dói-me tanto pensar nisso. Falando nessa dor, ela tem me acompanhado nesses últimos meses. Ela tomou, de certa forma, seu lugar. Foi o que você me deixou além das boas lembranças. Como diria Caetano: “Você não me ensinou a te esquecer, você só me ensinou a te querer.”
Imagino como você está agora e como é o lugar em que está. Imagino todos felizes e alegres. Você deve ter encontrado quem a ama de verdade. Digo, não que não a amasse. Amei-a (e amo!) tão intensamente que seria impossível que alguém a amasse tanto. Quero dizer que deve ter achado quem o amasse de maneira mais medida, mais natural. Não como eu que nunca soube amar.
Quando amo, amo verdadeiramente e intensamente. Amo com o corpo inteiro, de forma desmedida. E que, assim como a tristeza, é algo quase imperceptível de inicio. Vem devagar e, aos poucos, lhe toma. Não dá pra controlar. Não sei de onde vem mas sei que, no fim, transforma-se em dor...
Por hora, é isso que lhe escrevo. Como se fosse ler. E digo o que sinto como se sentisse o mesmo.
24/12/11
Sunday, December 18, 2011
Luminescência
Viu ao longe uma pequena clareira. A princípio, não dera muita importância, assim como fizera sua vida toda. Nunca dera importância ao que era realmente essencial e, em algum momento de sua existência, reclamava sobre o quão miserável ela era. Lembrou-se dessa mesma luz que o iluminara há alguns anos atrás, mas, como tudo na vida do garoto, desvanecera de repente e o deixara na escuridão por alguns instantes.
Reencontrou essa tal clareira que, porém, estava diferente. Já não iluminava da mesma forma que há alguns anos. No presente, embora tenha começado com pequenos lampejos ficara feliz por tê-la de volta. Acostumando-se com o fato de que essa luz, que já não mais o iluminava, iluminasse outros. Aprendera a admirá-la de longe. Mas, ainda assim, era egoísta e sempre fora. Foi ensinado dessa forma, em um mundo em que ”tudo é meu e de mais ninguém”. Queria-a apenas para si e isso o matava. Não por não tê-la de fato, mas, por querê-la tão intensamente.
O desejo súbito foi cedendo aos poucos e, em seu lugar, ocupou-se aquela vontadezinha do que poderia ser e os “sês” do que poderia ter sido. Aquela vontade que vem devagar, como se fosse algo bobo e sem importância, e de repente toma conta da sua mente e o faz perder noites de sono. Uma saudade que vem aos poucos: aquilo que ficou fruto daquilo que não ficou.
Na medida em que os meses passavam a tal luz diminuía, gradualmente, sua intensidade. E todos assistiam, inquietantemente, de mãos atadas. Nunca a vira tão fosca e sem brilho! Era frustrante sentir-se impotente e assustador pensar que ela pudesse nunca mais ser da mesma forma que já fora.
De repente, quando já não se esperava mais nada, a luminescência ressurgiu tão intensa e cegante como jamais vira. Passou, por hora, a iluminá-lo e isso o confortou. Apaixonou-se e entregou-se. Custava em digerir a idéia de que a luz sofria de uma abrangência. Não o iluminava apenas, mas, para ele, aquela luz era tão importante que já pouco importava a quem iluminasse. Já não estava mais disposto a perdê-la. Cegou-se.
Estava de volta à escuridão que, agora, já não era mais física. Era uma escuridão de quem não queria ver. De quem fora acometido pelo amor, que o pegou de surpresa. E fora tocado tão profundamente que já havia se perdido em seu próprio caminho. Não sabia mais voltar e isso o assustava. Assistia, sem reação, à sua mudança. A luz, também, já não era mais a mesma. Mudara-se a forma e a cor.
Demorou alguns instantes para voltar a si. A cabeça centrada conseguia pensar, mesmo que ainda sob aquele efeito. Não sabia se aquilo ainda era o que queria. Parecia que não, mas o menino sempre tivera dificuldades em abrir mãos de certas coisas: principalmente aquelas que lhe eram essenciais. Aquelas que lhe pareciam impossível viver sem. Era sim, possível, só não sabia como. Desaprendera a viver de outra forma.
Concentrou-se em si mesmo. Não era bem resolvido o suficiente a ponto de esquecer-se de si próprio. A ponto de deixar a si próprio de lado e viver em função de outra coisa. Não podia se dar a esse luxo. “Eu sou mais forte do que eu.”.
Libertou-se.
Reencontrou essa tal clareira que, porém, estava diferente. Já não iluminava da mesma forma que há alguns anos. No presente, embora tenha começado com pequenos lampejos ficara feliz por tê-la de volta. Acostumando-se com o fato de que essa luz, que já não mais o iluminava, iluminasse outros. Aprendera a admirá-la de longe. Mas, ainda assim, era egoísta e sempre fora. Foi ensinado dessa forma, em um mundo em que ”tudo é meu e de mais ninguém”. Queria-a apenas para si e isso o matava. Não por não tê-la de fato, mas, por querê-la tão intensamente.
O desejo súbito foi cedendo aos poucos e, em seu lugar, ocupou-se aquela vontadezinha do que poderia ser e os “sês” do que poderia ter sido. Aquela vontade que vem devagar, como se fosse algo bobo e sem importância, e de repente toma conta da sua mente e o faz perder noites de sono. Uma saudade que vem aos poucos: aquilo que ficou fruto daquilo que não ficou.
Na medida em que os meses passavam a tal luz diminuía, gradualmente, sua intensidade. E todos assistiam, inquietantemente, de mãos atadas. Nunca a vira tão fosca e sem brilho! Era frustrante sentir-se impotente e assustador pensar que ela pudesse nunca mais ser da mesma forma que já fora.
De repente, quando já não se esperava mais nada, a luminescência ressurgiu tão intensa e cegante como jamais vira. Passou, por hora, a iluminá-lo e isso o confortou. Apaixonou-se e entregou-se. Custava em digerir a idéia de que a luz sofria de uma abrangência. Não o iluminava apenas, mas, para ele, aquela luz era tão importante que já pouco importava a quem iluminasse. Já não estava mais disposto a perdê-la. Cegou-se.
Estava de volta à escuridão que, agora, já não era mais física. Era uma escuridão de quem não queria ver. De quem fora acometido pelo amor, que o pegou de surpresa. E fora tocado tão profundamente que já havia se perdido em seu próprio caminho. Não sabia mais voltar e isso o assustava. Assistia, sem reação, à sua mudança. A luz, também, já não era mais a mesma. Mudara-se a forma e a cor.
Demorou alguns instantes para voltar a si. A cabeça centrada conseguia pensar, mesmo que ainda sob aquele efeito. Não sabia se aquilo ainda era o que queria. Parecia que não, mas o menino sempre tivera dificuldades em abrir mãos de certas coisas: principalmente aquelas que lhe eram essenciais. Aquelas que lhe pareciam impossível viver sem. Era sim, possível, só não sabia como. Desaprendera a viver de outra forma.
Concentrou-se em si mesmo. Não era bem resolvido o suficiente a ponto de esquecer-se de si próprio. A ponto de deixar a si próprio de lado e viver em função de outra coisa. Não podia se dar a esse luxo. “Eu sou mais forte do que eu.”.
Libertou-se.
Saturday, December 10, 2011
O Bem (17 horas)
As luzes piscavam coloridas, correndo, iluminando o quarto em focos aleatórios. As vozes, cada vez mais altas, assustadoramente reais como nem as vozes realmente reais pareceriam ser acompanhavam os vultos que, a todo o momento, transpassavam o pequeno cômodo, mas, de tanta transpassarem, já se acostumara com eles. Os barulhos o confundiam, o fizera perder o contato consigo mesmo. Entorpeceram-se os sentidos e desalinhara-se o pensamento. Atordoou-se.
Os barulhos foram cessando, gradualmente, junto ao medo. A calma tomou conta do ambiente que, em segundos, foi estraçalhada por completo por uma dor quase que física. Queria-o, de fato, e isso o matava. Tentava aproveitar-se da situação para manipular seus sentidos, materializá-lo, tê-lo consigo. Falhou.
Fechou, lentamente, os olhos. Começara a perder-se novamente em seus pensamentos até que ouviu uma calma respiração a alguns centímetros de seu ouvido. Posicionou seu rosto em direção a ela. Lá estava ele! Deitado bem ao seu lado, olhando em seus olhos! Imediatamente sentiu-se bem, tranqüilo. Sempre se sentia assim quando estava com ele. Depois veio aquela explosão de sensações que mal conseguia conter em seu corpo. Embora não deixasse que isso tudo se externalizasse, não significava que não sentia. Pelo contrário. De tanto que sentira, sentir tornou-se um fardo tal qual não lhe era mais conveniente carregar.
A frieza não era de nascença. Já ouve um tempo em que prezava sentir. A frigidez era apenas um reflexo de um coração que já fora tão machucado que sua sina era viver sem ele. Decididamente, viver sem sentimentos era muito mais fácil e seguro. Aprendera a viver dessa forma e vivera assim por tanto tempo que já não lembrava como era antes. Desaprendera a sentir. Seus fracassados casos amorosos se resumiam a um jogo de conquistas sem valor algum embora enganasse a si mesmo, fingindo que sentia, para sentir-se menos egoísta.
Não se importava, de fato, com muitas pessoas. Ou essa poderia ser apenas a imagem que queria passar para os outros. Mas, pra que? Era uma incógnita. Talvez nem mesmo o menino soubesse. Ele era o poeta e a poesia. Um poeta do cotidiano, sem os papéis e a caneta. Tampouco aquela formalidade, rima e métrica. Uma poesia que de tão subjetiva interpretável era. O limite entre um e outro era tênue.
Com ele, o menino sentia-se seguro, novamente. Não sentia mais aquele medo da perda. Aquele medo de sentir. Medo de apaixonar-se e de magoar-se caso, acidentalmente, acontecesse. O olhar do outro era penetrante, austero. E, ao mesmo tempo, pomposo e gentil. Era tudo o que precisava. Não era perfeito, afinal, ninguém é perfeito, mas, começara a acreditar veementemente que, embora com seus defeitos, era perfeito para ele.
Ambos ainda se olhavam fixamente. Queria-o mais intensamente. Agora, parecia mais real, mais palpável. Começou a aproximar seu rosto do dele. E, na medida em que se aproximavam mais rápido batia seu coração. No instante antes dos lábios se tocarem nada mais parecia importar. E quando finalmente os lábios se encostariam, ele desapareceu. Como se nunca estivesse existido.
Os barulhos foram cessando, gradualmente, junto ao medo. A calma tomou conta do ambiente que, em segundos, foi estraçalhada por completo por uma dor quase que física. Queria-o, de fato, e isso o matava. Tentava aproveitar-se da situação para manipular seus sentidos, materializá-lo, tê-lo consigo. Falhou.
Fechou, lentamente, os olhos. Começara a perder-se novamente em seus pensamentos até que ouviu uma calma respiração a alguns centímetros de seu ouvido. Posicionou seu rosto em direção a ela. Lá estava ele! Deitado bem ao seu lado, olhando em seus olhos! Imediatamente sentiu-se bem, tranqüilo. Sempre se sentia assim quando estava com ele. Depois veio aquela explosão de sensações que mal conseguia conter em seu corpo. Embora não deixasse que isso tudo se externalizasse, não significava que não sentia. Pelo contrário. De tanto que sentira, sentir tornou-se um fardo tal qual não lhe era mais conveniente carregar.
A frieza não era de nascença. Já ouve um tempo em que prezava sentir. A frigidez era apenas um reflexo de um coração que já fora tão machucado que sua sina era viver sem ele. Decididamente, viver sem sentimentos era muito mais fácil e seguro. Aprendera a viver dessa forma e vivera assim por tanto tempo que já não lembrava como era antes. Desaprendera a sentir. Seus fracassados casos amorosos se resumiam a um jogo de conquistas sem valor algum embora enganasse a si mesmo, fingindo que sentia, para sentir-se menos egoísta.
Não se importava, de fato, com muitas pessoas. Ou essa poderia ser apenas a imagem que queria passar para os outros. Mas, pra que? Era uma incógnita. Talvez nem mesmo o menino soubesse. Ele era o poeta e a poesia. Um poeta do cotidiano, sem os papéis e a caneta. Tampouco aquela formalidade, rima e métrica. Uma poesia que de tão subjetiva interpretável era. O limite entre um e outro era tênue.
Com ele, o menino sentia-se seguro, novamente. Não sentia mais aquele medo da perda. Aquele medo de sentir. Medo de apaixonar-se e de magoar-se caso, acidentalmente, acontecesse. O olhar do outro era penetrante, austero. E, ao mesmo tempo, pomposo e gentil. Era tudo o que precisava. Não era perfeito, afinal, ninguém é perfeito, mas, começara a acreditar veementemente que, embora com seus defeitos, era perfeito para ele.
Ambos ainda se olhavam fixamente. Queria-o mais intensamente. Agora, parecia mais real, mais palpável. Começou a aproximar seu rosto do dele. E, na medida em que se aproximavam mais rápido batia seu coração. No instante antes dos lábios se tocarem nada mais parecia importar. E quando finalmente os lábios se encostariam, ele desapareceu. Como se nunca estivesse existido.
Mais um cigarro
Imerso em seus próprios, torturantes, pensamentos. Já não sabia o que pensar, o que falar, como agir. Não que, de fato, soubera um dia. Mas agora era pior. Muito pior. Já não sabia se ia, se voltava, se permanecia parado. Ou se apenas se entregava à sua doce paranóia. Já não sabia quem era, o que era ou quem, ou o que, queria ser. Não sabia mais diferenciar o dever do querer. Não sabia de nada. Aliás, sabia de uma coisa, seu corpo implorava por um cigarro. Já não fumava mais.
Refletiu um tempo sobre por que parou de fumar. Lembrava que tinha algum objetivo incrustado. Um símbolo. A primeira meta de muitas metas que estariam por vir. Apenas o inicio de um ciclo de mudanças. O ano estava mudando, sua vida, então, também mudaria. Mas essa meta havia perdido seu significado. Já nem lembrava sobre o que se tratava. Não lembrava, igualmente, das outras metas. Como um ato tão banal como fumar ou parar de fumar poderia contribuir para alguma mudança? Como isso poderia contribuir pra qualquer coisa senão ao lucro da fabrica de cigarros?
-Por que diabos obriguei-me a parar de fumar? Onde estava com a cabeça?
Estava deitado em um quanto escuro. Inclinou a cabeça, levemente, para frente com o intuito de analisá-lo. A casa inteira rangia rangidos perturbadores. Os cômodos, aleatoriamente mobiliados, vazios. A casa inteira estava. Assim como se sentia o menino: vazio. Sozinho. E esse sentimento não o deixava. A solidão foi cruel. Atacou-o quando mais precisou de alguém e o matou por dentro.
Já levava o cigarro até a boca quando lembrou que o tal símbolo tinha um por quê. Era algo muito grande, incomensurável. Não lembrava o que era, mas, lembrava que era algo que mudaria a sua vida e a si mesmo completamente. Mas a dor da abstinência era grande e aquela altura já se tornara física. E pesava. E muito.
Começara a divagar sobre esse símbolo. Qual significado poderia guardar? Mas vinha apenas um branco, um profundo e infinito branco à sua mente. Não conseguia pensar em nada senão naquilo: fumar, fumar e fumar.
Por que perdera tanto tempo de sua vida e seu dinheiro naquele hábito tão patético? Onde já se viu, pagar por aquilo que o vicia e o mata?Mas como dizem: uma vez viciado, sempre viciado. E isso o puxa para baixo. Por mais que se queira parar, se por um momento distrair-se do dever de vigiar-se toda a hora isso o engole novamente e torna-se cada vez mais difícil libertar-se.
A música clássica suavizava aos poucos o ambiente pesado. Começara, então, a sentir, apenas, a música. As cordas dançantes dos violinos inquietantes. O som das teclas do piano, uma a uma, sendo pressionadas. Aquelas notas penetravam na sua mente e o levavam aos céus. Sentia-se infinito. Sentia-se invencível. Sentia que poderia conseguir tudo o que quisesse se assim acreditasse. E acreditou. Acreditou que toda a sua vida poderia mudar naquele instante. Lembrou-se dos por quês e do símbolo. Lembrou-se do que queria para a si: não era nada daquilo que tinha.
A mudança começa com pequenos feitos. Vem com pequenos focos, a primeira vista, insignificantes, mas com o tempo vai crescendo e quando se vê nem se sabe mais como era antes. Como no caso de parar de fumar. Não é sobre apenas o fato de fazer mal, ou de financiar um sistema injusto. É muito mais que isso. Faz parte desses pequenos feitos. Quebrar barreiras, não depender de nada. Libertar-se. Era isso o que o menino queria e quisera sua vida toda, só lhe faltavam forças.
A música acabou. E o ambiente começou a pesar novamente. Sentou-se na cama e deu mais uma olhada a seu redor. A solidão era sua companheira, talvez a única. Os cômodos, aleatoriamente mobiliados, vazios. Assim como o menino.
Acendeu um cigarro e levou-o até a boca.
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