Cara pessoa-que-mais-quer-meu-bem,
Escrevo-lhe esta carta mesmo sabendo que você nunca a lerá. É minha forma de tentar me justificar comigo mesmo e fazer eu me sentir menos culpado pelas coisas que eu fiz. Não sei se para você faria diferença, mas para mim faz e muita. Tem sido difícil segurar as pontas.
Vou começar com nosso primeiro adeus: acredite, poucas coisas na minha vida foram tão difíceis e dolorosas. Essa foi a primeira vez que você me matou, como se manteve fazendo durante todos esses últimos meses. Ninguém nunca havia me decepcionado tão profundamente como você fez e, como você deve saber, eu nunca vou conseguir esquecer ou superar tudo o que houve, nunca.
A segunda vez que você me matou foi de forma parcelada, a cada último adeus que dávamos e a cada reencontro que tínhamos e jurávamos que daquela vez tudo seria diferente e não era. E eu pensei que nunca seria porque eu sempre fui uma pessoa muito pequena ao seu lado, e você me engolia. Era tão imutável e pé no chão que não dava espaço para o meu "eu sonhador"que sempre quis tudo de uma só vez. Mas eu me enganei e essa foi a terceira vez que você me matou.
A terceira vez que você me matou foi quando, já sem esperança, com o peito vazio, você, surpreendentemente mudou e começou a ser tudo o que eu sempre pensei querer. Não era. Não era porque eu havia entendido uma coisa que você ainda pensa entender mas não entende. Eu entendi a tatuagem que você fez para mim na costela. Eu entendi que era eu que te prendia nesse eterno jogo de fingir ser o que não é e não o deixava voar. Eu entendi que não era você que não era para mim, mas eu que não era para você, Mas eu estava ocupado demais achando que eu era especial que não vi. Eu entendi que não sou especial. Que eu não sou quem você precisa. E, da forma mais dolorosa, eu entendi que eu devia deixa-lo ir.
Você ainda me mata devagarzinho todo dia. A cada música "nossa" que ouço e me faz lembrar de nós. A cada cheiro de perfume doce que sinto na rua e me faz voltar a odiar sentir. A cada noite em claro que passo imaginando como você esta e olhando para a tela do celular sem poder mandar-lhe mensagem. A cada boca que beijo que não é a sua. Ou a cada texto repleto de eu's e você's que escrevo por não conseguir superar "nós". Porque você me impregnou e agora tudo é você. Mas vai passar e eu vou esquecer como se a gente nunca tivesse existido, ou pelo menos lembrar e conseguir seguir em frente.
Sei que você pensa que para mim as coisas são fáceis demais, mas não são. E quando lembro das suas últimas palavras "não faz isso comigo, eu quero ter uma vida com você", meu corpo estremece inteiro e eu sinto vontade de chorar oceanos. Nunca vai ser fácil para mim. Mas, se um dia você ler esse texto e me perguntar como eu me sinto, vou abrir um sorriso enorme e dizer que nunca estive melhor. Porque eu faço isso por nós e a ultima coisa que precisamos agora é de tristeza. Sempre soubemos que não daria certo.
Então, me desculpa, João. Eu espero que você encontre alguém que possa fazer-lhe realmente feliz. Da forma que sempre quisemos ser.
Com amor,
Lucas