Sunday, March 4, 2012

Apenas um passo

Deitado sobre o terraço do seu prédio. Olhava o céu coberto de estrelas e pensava consigo. Como se elas pudessem ouvi-lo. Como se, caso o ouvissem, dar-lhe-ia respostas que nem mesmo o menino conseguia concluir por si só. A verdade é que estava confuso como fora por toda sua vida. Nunca soubera lidar de imediato com acontecia interiormente com ele. Tampouco com o que acontecia ao seu redor. O que lhe rendia horas perdidas divagando a respeito de questões que, talvez, nem ao mesmo possuíssem respostas.
Estendeu, suavemente, sua mão em direção a um alguém imaginário. Almejava uma mão que segurasse a dele, de forma firme, e não soltasse mais. Alguém que o fizesse sentir-se seguro como já não se sentia há tempos. Não encontrou ninguém. Apenas um vazio absoluto e o vento frio que por entre seus dedos e o fazia sentir esse mesmo vazio dentro de si.
Poderia praguejar aos ventos. Culpar a todos e a si mesmo. Sentir uma raiva ou uma tristeza súbita. Não sentia nada. Permanecia, simplesmente, lá, parado e intacto, numa constante inércia. Queria sentir raiva, ou tristeza, ou redenção, ou compreensão. Mas a única coisa que lhe vinha era um vazio que não passava.
Julgou injusto tudo aquilo que acontecia. Por que com ele? Por que justo naquele momento? Mas já não sabia o que pensar. Perdera as perspectivas. Era apenas um menino bobo que não sabia nada da vida. E não deixaria de ser tão cedo. Não era ninguém para julgar e tinha pouco conhecimento sobre justiça.
Fechou, lentamente, os olhos. Lembrou de um conselho que outrora uma amiga lhe dera. Imaginar-se em um lugar bonito e seguro. Um lugar em que nada o preocupasse, onde não houvesse nada além de si próprio. De repente, uma tranqüilidade começou a tomar conta de seu coração e espírito. Acalmou-se.
Nesse mundo imaginário, andava próximo a córrego que parecia ter vida pela abundancia de peixes que passavam por ali. Estava rodeado por uma densa floresta de pinheiros. E pássaros, a todo o momento, cantavam sobre as árvores ou embelezavam o infinito céu azul. Nada parecia importar naquele momento. Tudo era perfeito e sentia-se intocável. Como se colocado em um pedestal.
Sentia uma paz quase inabalável paz interior. Até que essa mesma paz foi, por fim, abalada. Olhou ao seu redor e tudo estava quieto demais. Sentiu-se só. Em desespero, procurou por um alguém, qualquer um com que pudesse entendê-lo e ouvi-lo. Alguém com quem pudesse compartilhar sua paz, suas felicidades, alegrias. Não achou ninguém.
Então, abriu os olhos. O contraste entre estes dois mundos o fez sentir uma pontada no coração. Não adiantava idealizar um mundo que não era real. A realidade lhe era cruel e talvez até injusta. Sentia-se como caindo em um buraco que não tinha fim. Era isso o que sentia, em uma constante e eterna queda.
O vazio cresceu ainda mais dentro do menino que já não conseguia mais pensar em nada a não ser acabar com ele. Pôs-se de pé. Estava farto de fingir ser forte. Nunca fora e, talvez, jamais seria. Então veio a dor. E veio tão forte que sentiu fisicamente. O que o fez contrair-se e ficar de joelhos.
Estava próximo ao parapeito. Reergueu-se e repôs-se. Apoiou os cotovelos na beirada e pôs-se a observar as pessoas que, daquela altura, pareciam formigas. Pareciam tão pequenas e insignificantes. Direcionou o olhar aos restantes prédios. E, então, olhou para si. Sentiu-se, também, pequeno e insignificante. Era só um menino comum. Um como outros milhões. Nada o fazia diferente, nem mesmo a dor.
Subiu na mureta e, de pé, olhou para baixo. Era como olhar de um precipício. Mal se dava para ver o final. Mas o menino viu muito além. Viu uma forma de libertação. E, pela primeira vez em semanas, chorou um choro silencioso. As lagrimas escorriam por seu rosto e o deixavam úmido. Levou as mãos cobertas pela manga de seu casaco ao rosto e aos olhos.
Um passo o separava da suposta libertação. Lentamente, foi inclinando seu corpo em direção ao nada. Até que seu pé já não encostava mais nos tijolos. Sentiu-se como voando por alguns milésimos de segundos o que o fez esboçar um sorriso. Então, por fim, o escuro.