Viu ao longe uma pequena clareira. A princípio, não dera muita importância, assim como fizera sua vida toda. Nunca dera importância ao que era realmente essencial e, em algum momento de sua existência, reclamava sobre o quão miserável ela era. Lembrou-se dessa mesma luz que o iluminara há alguns anos atrás, mas, como tudo na vida do garoto, desvanecera de repente e o deixara na escuridão por alguns instantes.
Reencontrou essa tal clareira que, porém, estava diferente. Já não iluminava da mesma forma que há alguns anos. No presente, embora tenha começado com pequenos lampejos ficara feliz por tê-la de volta. Acostumando-se com o fato de que essa luz, que já não mais o iluminava, iluminasse outros. Aprendera a admirá-la de longe. Mas, ainda assim, era egoísta e sempre fora. Foi ensinado dessa forma, em um mundo em que ”tudo é meu e de mais ninguém”. Queria-a apenas para si e isso o matava. Não por não tê-la de fato, mas, por querê-la tão intensamente.
O desejo súbito foi cedendo aos poucos e, em seu lugar, ocupou-se aquela vontadezinha do que poderia ser e os “sês” do que poderia ter sido. Aquela vontade que vem devagar, como se fosse algo bobo e sem importância, e de repente toma conta da sua mente e o faz perder noites de sono. Uma saudade que vem aos poucos: aquilo que ficou fruto daquilo que não ficou.
Na medida em que os meses passavam a tal luz diminuía, gradualmente, sua intensidade. E todos assistiam, inquietantemente, de mãos atadas. Nunca a vira tão fosca e sem brilho! Era frustrante sentir-se impotente e assustador pensar que ela pudesse nunca mais ser da mesma forma que já fora.
De repente, quando já não se esperava mais nada, a luminescência ressurgiu tão intensa e cegante como jamais vira. Passou, por hora, a iluminá-lo e isso o confortou. Apaixonou-se e entregou-se. Custava em digerir a idéia de que a luz sofria de uma abrangência. Não o iluminava apenas, mas, para ele, aquela luz era tão importante que já pouco importava a quem iluminasse. Já não estava mais disposto a perdê-la. Cegou-se.
Estava de volta à escuridão que, agora, já não era mais física. Era uma escuridão de quem não queria ver. De quem fora acometido pelo amor, que o pegou de surpresa. E fora tocado tão profundamente que já havia se perdido em seu próprio caminho. Não sabia mais voltar e isso o assustava. Assistia, sem reação, à sua mudança. A luz, também, já não era mais a mesma. Mudara-se a forma e a cor.
Demorou alguns instantes para voltar a si. A cabeça centrada conseguia pensar, mesmo que ainda sob aquele efeito. Não sabia se aquilo ainda era o que queria. Parecia que não, mas o menino sempre tivera dificuldades em abrir mãos de certas coisas: principalmente aquelas que lhe eram essenciais. Aquelas que lhe pareciam impossível viver sem. Era sim, possível, só não sabia como. Desaprendera a viver de outra forma.
Concentrou-se em si mesmo. Não era bem resolvido o suficiente a ponto de esquecer-se de si próprio. A ponto de deixar a si próprio de lado e viver em função de outra coisa. Não podia se dar a esse luxo. “Eu sou mais forte do que eu.”.
Libertou-se.
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