"Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece." "Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. Sou irritável e firo facilmente. Também sou muito calmo e perdôo logo. Não esqueço nunca. Mas há poucas coisas de que eu me lembre." “Apesar do meu ar duro, sou cheio de muito amor e é isso o que certamente me dá uma grandeza.”
Saturday, December 10, 2011
Mais um cigarro
Imerso em seus próprios, torturantes, pensamentos. Já não sabia o que pensar, o que falar, como agir. Não que, de fato, soubera um dia. Mas agora era pior. Muito pior. Já não sabia se ia, se voltava, se permanecia parado. Ou se apenas se entregava à sua doce paranóia. Já não sabia quem era, o que era ou quem, ou o que, queria ser. Não sabia mais diferenciar o dever do querer. Não sabia de nada. Aliás, sabia de uma coisa, seu corpo implorava por um cigarro. Já não fumava mais.
Refletiu um tempo sobre por que parou de fumar. Lembrava que tinha algum objetivo incrustado. Um símbolo. A primeira meta de muitas metas que estariam por vir. Apenas o inicio de um ciclo de mudanças. O ano estava mudando, sua vida, então, também mudaria. Mas essa meta havia perdido seu significado. Já nem lembrava sobre o que se tratava. Não lembrava, igualmente, das outras metas. Como um ato tão banal como fumar ou parar de fumar poderia contribuir para alguma mudança? Como isso poderia contribuir pra qualquer coisa senão ao lucro da fabrica de cigarros?
-Por que diabos obriguei-me a parar de fumar? Onde estava com a cabeça?
Estava deitado em um quanto escuro. Inclinou a cabeça, levemente, para frente com o intuito de analisá-lo. A casa inteira rangia rangidos perturbadores. Os cômodos, aleatoriamente mobiliados, vazios. A casa inteira estava. Assim como se sentia o menino: vazio. Sozinho. E esse sentimento não o deixava. A solidão foi cruel. Atacou-o quando mais precisou de alguém e o matou por dentro.
Já levava o cigarro até a boca quando lembrou que o tal símbolo tinha um por quê. Era algo muito grande, incomensurável. Não lembrava o que era, mas, lembrava que era algo que mudaria a sua vida e a si mesmo completamente. Mas a dor da abstinência era grande e aquela altura já se tornara física. E pesava. E muito.
Começara a divagar sobre esse símbolo. Qual significado poderia guardar? Mas vinha apenas um branco, um profundo e infinito branco à sua mente. Não conseguia pensar em nada senão naquilo: fumar, fumar e fumar.
Por que perdera tanto tempo de sua vida e seu dinheiro naquele hábito tão patético? Onde já se viu, pagar por aquilo que o vicia e o mata?Mas como dizem: uma vez viciado, sempre viciado. E isso o puxa para baixo. Por mais que se queira parar, se por um momento distrair-se do dever de vigiar-se toda a hora isso o engole novamente e torna-se cada vez mais difícil libertar-se.
A música clássica suavizava aos poucos o ambiente pesado. Começara, então, a sentir, apenas, a música. As cordas dançantes dos violinos inquietantes. O som das teclas do piano, uma a uma, sendo pressionadas. Aquelas notas penetravam na sua mente e o levavam aos céus. Sentia-se infinito. Sentia-se invencível. Sentia que poderia conseguir tudo o que quisesse se assim acreditasse. E acreditou. Acreditou que toda a sua vida poderia mudar naquele instante. Lembrou-se dos por quês e do símbolo. Lembrou-se do que queria para a si: não era nada daquilo que tinha.
A mudança começa com pequenos feitos. Vem com pequenos focos, a primeira vista, insignificantes, mas com o tempo vai crescendo e quando se vê nem se sabe mais como era antes. Como no caso de parar de fumar. Não é sobre apenas o fato de fazer mal, ou de financiar um sistema injusto. É muito mais que isso. Faz parte desses pequenos feitos. Quebrar barreiras, não depender de nada. Libertar-se. Era isso o que o menino queria e quisera sua vida toda, só lhe faltavam forças.
A música acabou. E o ambiente começou a pesar novamente. Sentou-se na cama e deu mais uma olhada a seu redor. A solidão era sua companheira, talvez a única. Os cômodos, aleatoriamente mobiliados, vazios. Assim como o menino.
Acendeu um cigarro e levou-o até a boca.
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