Não se reconhecia mais. Chegara o clássico momento em que parecia necessário abrir mão de certas coisas, mesmo as mais preciosas, mesmo aquelas que já faziam parte dele. Momento em que, mesmo que difícil, supostamente, racionalmente, deixar tudo para trás lhe parecia o mais sensato. Momento de languidez. Momento de imolação.
Procurava a felicidade na escuridão. Perguntava-se até onde deveria ir. Até onde valia a pena. Seus olhos, sempre gentis, permaneciam, agora, imóveis, sem expressão. Focava o nada como se o nada fosse dizer-lhe a resposta de tudo. Não havia angústia. Não havia mágoa. O peito vazio, sem contração. Não havia grito.
Sentia-se incompreendido de tal maneira que nem mesmo ele se entendia. Naquele momento encontrava-se em um mundo criado, uma espécie de realidade paralela que o acolhia uma vez que a realidade real lhe parecia sem sentido.
Pensou sobre como sua vida havia mudado tanto em tão pouco tempo. Em como ele mesmo havia se transformado e que, ainda sim, não conseguia se encaixar. Vez ou outra abriu mão de suas vontades para sentir-se incluído. Vez ou outra chorou, silenciosamente, por ser diferente. Não sabia direito o por quê mas descobriu, da pior maneira, que não valia a pena.
Imaginou, inúmeras vezes, ter, enfim, encontrado alguém que o compreendesse. Perdeu-se, encontrou-se, perdeu-se, encontrou-se. Sentimentos diferentes, promessas diferentes, contextos diferentes, finais iguais. Acostumou-se aos quases: a seus quase-amores, suas quase-realizações, sua quase-felicidade.
Certo, por fim, que a solidão a dois era muito mais amarga, decidiu fazer, então, algo em que sempre foi bom: ficar sozinho. O cérebro, novamente, passou a fazer o trabalho em que outrora o coração se atreveu em realizar mas que era seu por direito, comandar seu corpo e suas ações. Olhos inexpressivos. Coração de gelo. Não havia sentimento.
Posso, finalmente, voar - pensei. E mesmo que o destino seja incerto é, certamente, melhor que a dor.
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