Monday, September 1, 2014

Tudo isso pra dizer que eu não sei dizer no que isso vai dar

Após muito tempo fechados, abriu os olhos novamente. E a sua volta viu apenas uma aterrorizante escuridão da qual jamais conseguira se acostumar. Ainda que a mesma já o fosse como uma parte dele. Uma parte da qual mesmo que fugisse, corresse ou gritasse por socorro, não conseguiria se livrar. Aceitou-a, então, como uma amiga.
Abaixou os olhos, fitando o nada, agarrava-se às suas próprias pernas como um feto em sua fase embrionária. Tinha medo de pensar muito, um receio que esses mesmos pensamentos o levassem a coisas cujas quais o fariam enlouquecer ou perder os sentidos. Outrora entorpecia-se para que tudo parecesse mais fácil, embora soubesse que no fundo a escuridão ainda estaria ali o fazendo companhia. Sabia agora, entretando, que lhe era inútil. No local em que se encontrava, não se contavam as horas. Logo, não se sabia ao certo por quanto tempo permanecera ali, mas sabia que havia sido uma quantia considerável.
Em algum momento da estadia que, ao seu ver, lhe parecia eterna, adormeceu. As horas, ou os dias, então correram mais rápido, embora sempre da mesma forma. Nada parecia mudar naquele lugar. Até que, em um de seus cochilos, um forte tremor o despertou. Abriu rapidamente os olhos e observou curiosamente todo o escuro a sua volta. Para sua surpresa, enxergou ao longe um foco de luz. Levantou-se vagarosamente e foi se aproximando de forma um pouco arrastada e desorientada do que acabara de avistar. Percebeu, então, o semblante de um menino. Suas pernas estremeceram e fraquejaram tão abruptamente que caiu de joelhos. Seus olhos umideceram e a expressão de seu rosto passou de cansada para subitamente esperançosa. A sombra parecia a de um anjo, os cabelos cacheados cuidadosamente bagunçados, o corpo esgio e os olhos, embora não conseguisse ver, poderia jurar que sorriam junto com a boca.
Passou um tempo a contemplar de longe a imagem antes que pudesse reunir forças para se recompor. Passado esse tempo, pôs-se a levantar e a caminhar, agora a passos largos, na direção daqueles cachos. Foi se aproximando rapidamente e a cada passada, seu coração parecia bater mais forte. Até que chegou perto o suficiente a ponto de conseguir enxergar o rosto da não-mais-sombra. O menino esguio do cacheado mais bonito que já vira, olhava nos olhos do outro, que arrepiou-se com sua beleza. Sem reação, só conseguiu admira-lo de perto. E então, mais rápido que pudesse perceber, a ex-sombra o segurou pela mão e quando, enfim, tomou nota de si, estava seguindo-o por um corredor iluminado. Aquele era um toque que jamais havia sentido. Uma mistura de inocência e malícia. Por algum motivo, sentiu-se seguro e isso o fez esboçar um sorriso que já nem sabia mais que era capaz. Perdia-se em pensamentos confusos até que o menino parou em frente a uma porta que tremia e o outro quase tremia com ela.
- Preparado?
Embora houvesse muitas dúvidas e perguntas não conseguiu dizer mais nada além de:
- Sim.
E então giraram juntos a maçaneta que os levou a uma grande sala escura e barulhenta decorada luzes que pipocavam desordenadamente por todo o local repleto de gente de todos os jeitos. Percebeu em alguns instantes que o barulho era uma espécie de música que, embora lhe parecesse estranha, parecia agradar às pessoas que dançavam de uma forma esquisita. Estava pensando em uma forma de correr para longe daquele lugar, até que foi puxado pelo menino que o trouxera ali. Seus olhos o fitaram e ainda o observava de perto quando o mesmo começou a dançar. E de sua dança, conseguiu enxergar uma pureza, que o trouxe algum tipo de paz interior. E então todos os pensamentos ruins desapareceram e não conseguiu fazer mais nada além de continuar observando-o. Não via mais ninguém além do menino que a poucos contemplara de longe. Não ouvia mais nada além da batida acelerada do seu coração. E não conseguia fazer mais nada além de sorrir por dentro e por fora.
Não sabia dizer no que aquilo daria, mas não queria que aquele momento acabasse.

Lucas R.

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